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Jornal Aberto - Crónicas
Crónicas

Crónicas (6)

O Cristóvão morreu.
 
O Cristóvão morreu. Poderia ser só isto. Mas não. É preciso dizer mais. É preciso dar voz ao Cristóvão. É preciso lembrá-lo. 
O Cristóvão era um menino pobre. Vivia com a avó que cuidava dele como se fosse a sua mãe, a mesma que deu de fosques quando o trouxe ao mundo. 
O Cristóvão foi crescendo, sempre sorridente, enérgico e brincalhão. Era um miúdo travesso, o Cristóvão. Não era apaixonado pelos estudos, mas tinha um dom. Desenhava como ninguém. Desenhava pessoas, flores, animais. O desenho era a sua paixão e companhia dos dias de solidão. 
Apesar de ser um menino simpático, o Cristóvão cheirava mal. As outras crianças afastavam-se dele, ignoravam-no. Mas ele não tinha culpa. Era pobre. E em alguns momentos, precisava até de surripiar o lanche dos amiguinhos para poder encher a barriga e matar a fome antes que ela o matasse. 
Portava-se mal, de vez em quando. Rebelde. Matreiro. Às vezes, juntava-se aos meninos maus, mas não era mau. Procurava integrar-se. E fazer asneiras era a forma de se ligar às outras crianças. De ser aceite. 
Foi-se tornando homem, e as circunstâncias da vida levaram-no a tomar muitas escolhas erradas. 
Hoje o Cristóvão morreu. Espancaram-no até à morte. Mas como sabemos, a justiça não funciona bem, e os malfeitores irão caminhar ao nosso lado, sem que imaginemos que carregam nas mãos, o sangue do Cristóvão. É que o Cristóvão era pobre, estava por conta própria, vivia, como quem diz, ao Deus-Dará. E como sabemos, a justiça não funciona bem para os Cristóvãos deste país.
Hoje recordemos esse rapazinho que mesmo não tendo tido o amor da mãe, no dia de celebrar as mães, desenhava com carinho rosas e malmequeres para os seus amiguinhos oferecerem às mamãs. O miúdo travesso a quem a vida foi madrasta. O miúdo que sorria mesmo com fome.
Que a morte do Cristóvão não seja em vão. Que sirva para que sejamos capazes de estender a mão a quem precisa, que saibamos acarinhar aquele que sofre, e que o mundo comece a dar as mesmas oportunidades a quem não nasce em berço de ouro. 
Se a vida do Cristóvão não fez a diferença no mundo, que a sua morte seja capaz de a fazer.
 
 

O ser humano falha e são as suas falhas que o permitem aprimorar-se.
 
No entanto, o medo de falhar é uma constante. Está sempre presente, como uma pulga profundamente entranhada no nosso corpo.
 
O que acontece é que ao permitirmos que as nossas crianças cresçam toldadas pelo medo, estamos a projetar um futuro triste e sem sonhos. 
 
Quantos de nós já desistimos de fazer aquilo em que realmente éramos bons?
 
Quantos de nós já desistimos de trabalhar com o que nos entusiasma e dá vigor à vida?
 
Matar o sonho é matar o que temos de verdadeiramente nosso, e infelizmente, os sonhos dos mais novos são aniquilados logo que se dão a conhecer. 
 
Crescemos numa era descartável, as pessoas assemelham-se a fotocopiadoras em massa, e vivemos para servir os ideais que nos foram incutidos desde tenra idade, ideais esses que fazem com que nos esqueçamos da nossa essência.
 
Nem todos nascemos com o desejo de seguir um curso de medicina, nem todos somos génios da matemática… Alguns de nós, queremos apenas seguir o coração! 
 
«Mas tu tens de ser alguma coisa, tens de tomar uma decisão», e se eu não quiser tomar decisão alguma? Dizem que as pessoas que se aventuram em dezenas de ofícios, fazem-no porque não sabem o que querem, de facto, da vida. 
 
Mas quem escreveu essa lei que nos obriga a escolher uma profissão e a conformarmo-nos a vida inteira com um trabalho que não nos faz sorrir?
 
Quem disse que precisamos optar por um mestrado numa área que nem gostamos assim tanto em detrimento de vários outros cursos que não nos garantem saídas profissionais, mas nos fazem sentir completos e felizes?
 
Eu quero ser tudo o que gosto de fazer, e se é esse o desejo das nossas crianças, então talvez seja nosso dever deixá-las serem tudo o que elas quiserem, desde que o sejam com dignidade e respeito. 
 
Será que é mais importante formar adultos felizes ou adultos doutores?