All for Joomla All for Webmasters
Jornal Aberto - Gabriela Torres

Gabriela Torres

 
Já dizia aquele ditado super antigo, tipo da época dos romanos que “à mulher de César não basta ser, é preciso parecer”.
 
Tenho pena dessa tal mulher de César, pois tem de viver com uma pessoa que tem a mania das grandezas.
 
Este ditado claramente não se aplica ao cidadão Sócrates.
 
Não ao da Grécia antiga! Mas ao do Portugal contemporâneo. Se bem que ambos vivem sob a mesma máxima “Só sabem que nada sabem”!
 
José Sócrates não diz que tem. Ele não vive de aparências, meus caros! Ele diz à “boca cheia” que os bens não são dele, que são fruto de empréstimo de familiares e amigos!
 
“Botai” olhinhos nele! Ele é um exemplo a seguir. 
 
Quem de vós, mulheres com maminhas de silicone, é capaz de assumir que pôs implantes mamários? Ninguém, não é? Tudo natural! Pois estou convencida de que se José Sócrates tivesse maminhas de silicone, era menino para dizer que as que ele tem maminhas são, afinal, do primo que ele tem em Quinxassa.
 
Sócrates, por exemplo, tem 61 anos. Mas, na realidade 50% da sua idade está dividida entre os seus familiares e amigos. Ele é uma pessoa que gosta da partilha e, principalmente que façam a partilha com ele.
 
Os filhos que ele tem, por exemplo, são metade dele. A outra metade é da ex-mulher. Sim, ex-mulher. Ele também não quis arcar com mais essa responsabilidade e despesa. 
 
O livro que ele escreveu, diz-se à boca pequena que não foi ele que escreveu. Deve ter sido também um amigo que escreveu e ele, muito gentilmente, cedeu para que o seu nome surgisse como autor. Vê-se logo que é uma pessoa desapegada dos bens materiais e voltada para a cenas filosóficas da vida.
 
Nós temos muito a aprender com o nosso concidadão José Sócrates. Que é uma pessoa que parece ser rico, mas não é. Porque ele não anda aí a dizer: “ai e tal que tenho um apartamento em Paris, com vista para a Torre Eiffel!” Não senhora! Fossemos nós, comuns cidadãos, dizíamos com toda a pompa e circunstância: “Vou passar as férias de Natal ao MEU apartamento de Paris!”. Mas, na realidade, esse apartamento é, afinal, um empréstimo de um tio de um amigo. 
 
É muito mais fácil e aprazível quando se tem um primo, tio ou amigo, que volta e meia, te dá uma casa ou te dá dinheiro.
 
Nesta altura natalícia, tão propícia à hipocrisia das aparências olhai para o exemplo de uma pessoa que tudo o que tem, nada é dele. Quereis mais desprendimento do que este? É muito enjoativo teres de viver sempre no mesmo apartamento. Principalmente quando tens de o pagar durante 50 anos. 
O que têm em comum as pêgas (aves), poupas (também aves) com o sobre-endividamento das famílias portuguesas?
 
Aparentemente, nada. É até um bocado estúpido fazer essa analogia.
Mas vai fazer sentido se fizermos uma reflexão sobre isso. Tudo anda à volta dos ninhos (casas).
 
De quando em vez, a minha mãe, que gosta imenso de ditados populares portugueses, e é ainda da época em que era possível fazer poupança, quando se comenta que alguém é forreta e que não gasta dinheiro com os pequenos (ou grandes) prazeres da vida para poupar para o dia de amanhã, senhora minha mãe utiliza o sábio ditado "Poupa, poupa e fazes um ninho de merda cocó!"
 
Toda a sabedoria popular portuguesa numa só frase!  E faz sentido fazer esta analogia da poupança com o ninho das Poupas e das Pegas, e passo a explicar:
As poupas são umas aves muito giras que, para além de terem um carrapito na cabeça (poupa,) fazem, literalmente, um ninho de excrementos. As poupas nidificam em buracos de árvores e, como forma de afastar eventuais predadores, estas expelem uma substância fétida. Daí o ditado.
 
Traduzindo isto para a vida do dia-a-dia, os portugueses, nos tempos que correm, não poupam, ponto. Portanto, isto já não é como antigamente, em que as pessoas metiam o dinheiro debaixo do colchão e pagavam a casa a pronto.
 
Atualmente o português vai ao banco e endivida-se até ao tutano para comprar casa, com crédito a 150 anos, com quatro fiadores e atestado criminal imaculado. Lá está: o tal ninho de merda! E de merda porquê? Por variadíssimas razões:
 
1.º Pedir crédito é uma merda (eu que o diga). É mais fácil sair do Protocolo de Quioto do que te livrares de um crédito.
2.º Os créditos são mais duradouros do que os casamentos. Aliás, podes acabar com o casamento, mas o banco jamais de te deixa sair do crédito.
3.º Mesmo que morras e tenhas o seguro de vida em dia, quem cá fica terá sempre de provar que morreste para que a seguradora ative o seguro. Por vezes um simples atestado de óbito não chega...
4.º Até podes ter morrido, mas deixas dívidas e descendência? A tua vida, só, não chega. Tens toda uma árvore genealógica para continuar a pagar o crédito.
 
Mas há ainda outro ditado popular português que ilustra bem o explicado supra: "Ninho feito, pega morta".
Lá está: estás com quase 120 anos, terminas de pagar o crédito ao banco e tens um AVC ou ataque cardíaco e "bates a bota" sem gozares um sequer minuto de liberdade bancária.
Trabalhaste até aos 100 anos (sim, qualquer dia a idade da reforma vai ser essa!) para andares de "cara levantada" e "não deveres nada a ninguém", tens as contas em dia e olhas para trás e tomas consciência de que sobreviveste a um crédito.
 
Não VIVESTE! "Arrastaste correntes" para deixar uma casinha para os filhos que, eventualmente, mais tarde, nem sequer vão querer aquela casa e vão viver para Bali, depois de fazer o roteiro do livro "Comer, Orar, Amar".
De facto, eles é que estão certos, porque o melhor da vida é comer, orar e amar.